‘TEMOS QUE CHEGAR A UM NOME DE CENTRO ATÉ NOVEMBRO’, DIZ JOÃO DORIA EM ENTREVISTA

Governador de São Paulo, João Doria  –  Foto: Caio Guatelli / Agência O Globo

O governador de São Paulo e possível candidato à Presidência da República em 2022 João Doria (PSDB) disse que o centro precisa encontrar, até novembro, um nome único para enfrentar o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A declaração foi dada em entrevista ao jornal O Globo, publicada neste domingo (25).

Postulantes do autodenominado “polo democrático” ao Palácio do Planalto,  o tucano reconhece que a discussão abarca um grupo grande e heterogêneo, mas, apesar das dificuldades, acredita em uma solução.

Veja parte da entrevista:

O espectro considerado nas conversas sobre a construção de uma terceira via para 2022 é uma espécie de “centro expandido” da política. Isso não dificulta a construção de uma candidatura forte para enfrentar Bolsonaro e Lula?

–  Todo início exige amplitude para que você possa depois chegar ao resultado. Por isso, são sete nomes que compõem esse polo democrático. Os pensamentos não são iguais. Mas nós convergimos em um ponto: a defesa do Brasil. Neste momento, isso basta. É um fator importante de coesão.

Não existe o risco de nomes demais na corrida, o que favorece os extremos?

–  Tem razão. Mas tudo tem sua hora. Neste momento, é a hora de manter esse campo do polo democrático mais expandido. Ao final do ano, provavelmente em novembro, ele deverá estar ampliado no seu âmbito de referências, mas com a definição de um nome que possa representar o centro no embate eleitoral.

Os nomes do centro têm diferentes visões sobre a economia, principalmente o ex-ministro Ciro Gomes. Há chance de aliança com o Ciro?

–  Nesse momento, a gente não pode descartar nada. Temos que ter uma visão um pouco mais sublimada das questões partidárias, eleitorais e até ideológicas. Colocar o Brasil em primeiro lugar e manter esse pensamento até o limite do possível. Qual é esse limite? A meu ver, será novembro, um ano antes do pleito eleitoral. Até lá, temos que dialogar e evoluir até chegarmos a um nome que permita uma conclusão.

 Na construção dessa aliança , a ideia também é agregar outros setores, como o empresariado

–  Sim, é importante. A sociedade civil como um todo, sejas pelas pessoas, seja pelas instituições. E por aquilo que representam. O mundo intelectual, o mundo da cultura, da economia e da advocacia.

O centro poderia ter mais de um candidato em 2022?

–  Haverá de ser um. É preciso ter paciência e discernimento. E de novo: focalizar o Brasil, a defesa do país e não a defesa pessoal. Se não conseguirmos chegar até outubro com uma única candidatura e tivermos mais de uma, faz parte do jogo. Temos que avançar sempre olhando o horizonte. Não é partido, não é pessoa e não é ideologia. É o país.

Aliados acreditam que a CoronaVac pode ser seu Plano Real. Mas, em 1994, a nova moeda foi lançada meses antes da eleição. O senhor não teme que o efeito político da vacina seja diluído?

–  A vacina não é um ativo eleitoral. É ativo de vida, de saúde e da ciência. Tenho trabalhado nesse sentido. Não pelo prisma eleitoral, populista e de dimensão partidária. Ainda vamos enfrentar a pandemia no ano que vem. Aliás, vamos enfrentar, talvez não como pandemia, mas como doença, por muitos anos. A necessidade da vacina será permanente. Pelo menos até que tenhamos medicamentos preventivos.

A vacina se tornará um ativo na medida que seu nome sair como candidato. Não é inevitável essa associação?

–  Claro. Você precisará ser vacinado. No início da semana quem vem, vou tomar minha vacina, tenho 63 anos. No ano que vem, todos brasileiros terão que ser vacinados. Você não vai se esquecer disso. O dia que os pais tomam a vacina, os filhos falam: “Ufa, meus pais estão vacinados”.

O senhor se arrepende de ter associado seu nome a Bolsonaro em 2018?

–  Errei ao votar em Bolsonaro e assumo isso. Como eu, milhões de outros brasileiros também votaram em Bolsonaro, contra o projeto do PT, e cometemos um grave equívoco. Eu assumo tacitamente isso. Mas não vou errar novamente.

O ex-presidente Fernando Henrique disse que se tivermos um segundo turno entre Lula e Bolsonaro, ele votaria no petista por ser “o menos ruim”. Concorda?

–  Eu prefiro votar no melhor, não no menos ruim. Prefiro acreditar que há soluções democráticas no Brasil acima de Lula e Bolsonaro.

Não há um exagero na tentativa de comparação entre Lula e Bolsonaro?

–  Os extremos se tocam, a história mostra isso.

Houve falta de coordenação entre Planalto e governadores na elaboração de medidas para ajudar as empresas a enfrentarem a pandemia?

–  Faltou coordenação nacional e liderança. O Brasil não tem um líder, tem um psicopata. Se tivesse um líder, ele teria liderado o país pela vida, pela saúde, pela vacina, pela retomada econômica, pelo combate à miséria, à pobreza, ao desemprego e à fome. O Brasil é um oceano de fracassos: na saúde, na ciência, no meio ambiente, na educação, na proteção aos mais pobres. Vai demorar para recuperar o Brasil depois de Bolsonaro.

Existe algo que possa ser feito agora, nacionalmente, para ajudar as empresas?

–  Milhões de pessoas estão sofrendo, assim como milhares de empresas. Qual é o nível de socorro e coordenação do governo federal? Nenhum. Mesmo para a aprovação de um auxílio emergencial houve uma dificuldade enorme e acabamos com um auxílio que dá para comprar um botijão de gás, dois quilos de arroz, dois quilos de feijão, dois sacos de farinha e mais nada. Que ajuda é essa? É um desastre.

 Se o caminho da terceira via não chegar a um nome e o senhor considerar que tem razão para disputar o Planalto, trocaria de partido?

– Meu projeto não é político-partidário. Meu projeto é defender meu país e isso está à frente do meu nome. Trocar de partido seria um gesto individualista, seria buscar na individualidade de uma outra opção partidária a defesa do seu interesse. Não há razão para sair do PSDB. Sou filiado ao PSDB desde 2001, filiado por opção, não por eleição.

Agência O Globo

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